O número de mortes decorrentes de intervenção policial em Pernambuco cresceu 30,9% em 2025 em comparação ao ano anterior. Do total, 94,4% das pessoas mortas eram negras. Os dados fazem parte da sétima edição do relatório "Pele alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã", da Rede de Observatórios da Segurança, lançado nesta quarta-feira (1º). Pernambuco registrou 89 mortes por ação policial no último ano. Em 2024, foram 68 mortes do tipo.
Das 89 vítimas, 84 foram registradas como pretas ou pardas. As demais são brancas (4 registros) e amarela (1). “Negros correm 11 vezes mais risco de serem mortos pela polícia do que outros”, diz trecho do relatório, com base nas taxas de mortes decorrentes de intervenção policial por 100 mil habitantes, calculadas separadamente para a população negra e branca.
Com relação à idade, a maior parte dos mortos (59 casos) tinham entre 18 e 29 anos, seguidos daqueles entre 30 e 39 anos (19). Outros 12 eram adolescentes, com idades variando de 12 a 17 anos. Este é o sétimo ano do relatório. Ao longo desse período, houve registro de 657 mortes por força policial no estado, o que representa um crescimento de 20,3% no período.
"A gente percebe uma certa contradição porque enquanto o Juntos pela Segurança [atual plano de políticas públicas de segurança e prevenção à violência de Pernambuco] comemora a queda de homicídios gerais, por outro lado existe um aumento de mortes causadas pela polícia. Deveria se garantir uma redução também dessa violência", diz pesquisadora da Rede de Observatórios de Segurança em Pernambuco, Dália Celeste.
"Os nossos dados mostram mais uma vez que a letalidade policial continua atingindo de forma bem desproporcional as pessoas negras e jovens", acrescenta Celeste. Segundo ela, a maior parte dessas mortes ocorreram em áreas periféricas do estado.
A pesquisadora afirma que os casos estão, no geral, ligados a uma "guerra às drogas". "Não existe aquele discurso de prevenção e proteção a esses jovens, e de evitar que eles estejam dentro desses espaços de marginalização. Mas há um discurso punitivista", avalia.
Brasil
Ao todo, o Relatório da Rede de Observatórios da Segurança monitora em nove estados as estatísticas de letalidade policial, com base em informações repassadas via Lei de Acesso à Informação. São acompanhados os estados de Pernambuco, Bahia, Ceará, Maranhão, Piauí, Amazonas, Pará, Rio de Janeiro e São Paulo.
O estudo identifica um aumento de 6,4% na letalidade policial em 2025 na média desses estados, com 4330 vítimas. O documento registra ainda que 86,3% dos mortos eram negros e 64,8%, jovens de até 29 anos.
"Os dados mostram que não estamos diante de uma fatalidade ou de casos isolados. Ano após ano, a principal vítima da letalidade policial continua sendo a juventude negra das periferias", afirma Silvia Ramos, cientista social e diretora da Rede de Observatórios da Segurança.
Com 96%, Amazonas tem a maior proporção de vítimas negras entre os estados monitorados. Na Bahia, dos 365 dias de 2025, 346 registraram mortes por agentes públicos de segurança. E São Paulo voltou a bater recorde dessas mortes, com 834 registros.
"Atuação não é orientada pela cor da pele"
Em nota, a Secretaria de Defesa Social (SDS) afirma que todas as ações realizadas pelas forças de segurança do Estado, como abordagens, operações e ocorrências com confronto, são conduzidas com base em critérios técnicos e operacionais.
A pasta também informa que sempre que há registro de morte decorrente de intervenção policial o caso é submetido à apuração nas esferas criminal e administrativa. "Caso sejam identificadas irregularidades, os responsáveis são devidamente responsabilizados na forma da lei", declara, acrescentando que a instauração de procedimentos investigativos é conduzida com "imparcialidade, assegurando o contraditório, a ampla defesa e o devido processo legal". A SDS afirma ainda na nota que investe permanentemente na formação e no aperfeiçoamento dos profissionais de segurança pública.
"Desde o ingresso nas corporações e ao longo de toda a carreira, policiais e bombeiros participam de capacitações voltadas à abordagem policial, ao uso progressivo da força, técnicas de imobilização, defesa pessoal, emprego de armamentos menos letais, tiro defensivo para preservação da vida, direitos humanos, atendimento a grupos vulneráveis e práticas de atendimento humanizado", diz trecho da nota. Por fim, a SDS declara que a atuação das forças de segurança não é orientada por características pessoais, como cor da pele.
"As intervenções policiais são motivadas exclusivamente por critérios objetivos, como o registro de ocorrências, informações produzidas pelos setores de inteligência, cumprimento de mandados judiciais ou situações de flagrante delito, sempre em observância aos princípios da legalidade, da impessoalidade e da proteção dos direitos fundamentais", conclui.
Por Jorge Cosme - Diário de Pernambuco





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